segunda-feira, 30 de maio de 2016






intercontinental

Fecha os olhos e imagina
as águas entre os estreitos caminhos
formados pela mata seca num pântano da Flórida durante o verão...
E o vento trepidando
morno,
e trepidando;
Agora dorme e acorda com
a cabeça nas alturas das paredes
de um cais em Veneza, daqueles
que nossos sonhos visitam para furtar
detalhes barrocos
e lembranças ancestrais... e o vento,
sempre o vento.
Verás como em ti despertará a
sensação de haver burlado o tempo,
só para cair de volta no colo do destino.









este poema para ti

Eu quero escrever e escrever
como se o tempo não existisse,
assim, tocando teus lábios
com a minha esferográfica.
Quero aprender a ver teu sorriso
ao piscar meus festivos olhos apaixonados
que guiam as palavras que escrevo
por que me inspiras.
Quero abraçar tua simplicidade
e sentir o calor que quero de ti,
assim, beijando teu corpo
com o meu poema.
Eu quero deixar este poema
e viajar pelo tempo,
esperando que a felicidade e a lembrança
me provenham a força.
Eu quero viver este momento
esperando que a poesia
me legue verdade
em tempos onde a realidade
não existirá.
Eu quero rezar pela convicção
enquanto estiver sendo consideravelmente
equivocado...
para então,
através do amor,
ganhar teu coração.


        photo: kiko nazareth


O AMOR

e como um mapa
ele vem marcando meu existir,
a ilusão do envelhecimento,
do rejuvenescer,
a concepção,
o morrer,
o risco de um lápis...
um odor e,
tão violentamente como quando acordo,
a luz, a vida, e a dor;
e ele vem mostrar mais,
sinto a chuva, agora,
sem culpa, e esse pulsar sob a carne,
esse peso sobre meu corpo, essa rispidez amorosa, lembranças de
risadas no meio da manhã, quando as sombras são sagradas,
e esse dia a dia, esse trivial ato, plantar e molhar,
no meio do quintal, onde trabalha-se pela noite
a colher velozmente.
No abrir e fechar das pálpebras do sol ,
transforma-se o vão do amor
em renovada anunciação matinal.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015



Nos amávamos tanto...



Veio cheio de histórias velhas

daquelas que só ouvimos para reparar,

em como varía a forma

de hablar;

A vida muda, mas não calada,

em cima do muro não havia nada,

mas você estava lá.

Desmoronou meu orgulho, o seu,

e não somos os mesmos depois de ver,

a poluição gerada por tamanho louvor.

Nos amávamos tanto...

Sentia tanto, sentia por todos,

mas não sorria, não brindava, não bebia,

comungava com todos, menos convosco...

e o cantar das ruas ama a alusão,

o sexo imaginado, o contorno do homem que aniquila,

que domina, deveras dominado...

Hoje em dia, meu nome não está atrelado,

aos poemas estelares 

inspirados por nós.
























MANÁGUA
y por donde tiemble la tierra, por donde crezcan las antenas de la ciudad, se oye la respiracion que el tiempo dejó;

la madre buena, añora, abraza los cuerpos, no llora, es plena, contenta, como un viajero... Ahora veo de lejos, lo que antes no era intero, las erupciones, los deseos, bueyes an las carreteras, polvo, y el miedo...

Hay una nación tan enorme, que deshace fronteras, enseña con maestría, y juro, por una estada intera, respiré nada más que alegria, Manágua, mis gentes de antaños...


























photo: kiko nazareth



c é u d a b o c a

o céu da boca
e aquela sensação de 
frio na barriga,
o trem do tempo,
o vácuo que levou todos que você não viu sumir
pela rota que ainda não está no mapa
em um horizonte imune e indiferente,

as rádios atingem meu abdômen 
com seus passeios pelo passado,
sou um ouvinte que já não mente, nem sonha,
muitos se entregam e confessam sem precisar,
mesmo aquilo que quase fizeram sem querer, 
e sussurram,
ao mundo ensurdecido, um pedido a mais;

pedidos no vácuo por onde somem os amigos, os amores, as confissões...















arte: kiko nazareth

terça-feira, 29 de setembro de 2015


POESIA IMENSA

eu quero um poema pueril
escrito para ninguém ler,
mas se eu sinto dor, se grito,
esse é um poema aflito, esse não quero escrever;

e quando ninguém escuta, ou se estão mortos,
eu canto em forma de reza e de lamento,
no escuro, sem trovão, lembro e quero lembrar:
é o poema cicatriz ou a prece do esquecimento;

Sabe?
um andarilho enterrou no centro da Terra,
um coração puro; e é o tesouro do mundo,
deixou também um mapa escrito em prosa,
com métrica que provoca náusea nos fortes,
zomba da muralha mais poderosa,
escavado no livro de todas as mortes...

...muitos alegam não ser poema,  
chamam de esquizofrenia, de dança,
dizem que não deixa nada de pé,  
outros juram ser poesia imensa, 
que não poupa um ser sequer.


ORAÇÃO



toda reza conserva, todo olhar reserva
uma história, um paraíso;
toda rua termina, toda dor tem final,
e, em cada esquina, em cada sinal, uma criança vende sua alma;
todos os guias trazem, secretamente, tudo o que tu precisas,
mais do que há em cada berço de ouro, 
mais do que há em cada terço, 
em qualquer rosário, em qualquer forjadura;
e virá redenção, quando o que ouvirmos for perdão, 
em tudo quanto disseres;
perdão, penitência divina,  oração vespertina ao sol, 
para cada confissão, perdão para os que nunca foram felizes.

segunda-feira, 21 de julho de 2014









ADEUS

a impressão 
que se tem é que todos os lados estão puxando 
seus gatilhos bem para trás... 
um cheiro de catarse no ar, eu sinto... e mais,
uma poça, dentro da constituição 
de Ulysses e Tancredo, e até do Sarney,
um medo das masmorras: cadafalço da paixão,
e você tão sem Deus, sem rei,
um povo que não se rebela revela, medos incontornáveis,
o medo, eu sei,
poucos ateus, nenhum gay,
as uniões instáveis; e o medo, eu sei...
todos já vimos essa canção, em Guantânamo,
andando na prancha, ou no exílio, em Paris,
queremos nossos filhos intactos,
mas o medo, sem chancela, e a constituição, sem juíz,
bem na minha mão, as deles, 
um dia serão mãos de um dos seus,
meu coração é um úmido calabouço de ilusões... mas por agora,

fuja, esconda seus sonhos, adeus!

     photo: kiko nazareth

SALVADOR
deve estar escondido, longe dos olhos,
protegido, reservado, bem cuidado, pelas águas,
vestido de guias, pai das flores,
 longe para que não se arrisque, 
senhor de todos os partos sem dores,
irmão daquele sorriso triste,
sequestrado pela senhora da boa esperança,
dono de alguém que ainda não existe,
não está longe,  como quem nunca se cansa...
uma história linda, um amor verdadeiro, 
silenciam os batuques, as casas de tolerância,
tudo por um ventre forrado de amor...
em candeais, em tambores, notícias do estrangeiro,
os Orixás ocultam a cidade, nos salvam da dor.















photo: kiko nazaret


h

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

LÁGRIMAS
sem emitir som
o rosto colado em algo
surge do canto do olho
inadvertidamente, um pingo de amor;
sob lentes, olhos transbordam,
o rosto encharcado
a respingar por toda parte e
compulsivamente, águas de louvor;
de noite, abraçados ou sozinhos,
abalados corações que apenas sobrevivem,
derramam impotentes gotas cristalinas,
redentoras lágrimas de dor.












nãomeescrevafalandodeamor


Eu preciso da caneta
antes de dormir,
à noite, eu preciso de você.
“Não me escreva falando de amor”,
disseram seus olhos
mas seu corpo disse “vem!”...
Agora eu preciso
do papel em branco,
da pele que cobre sua nudez,
da indecifrável pureza sua.


















pecado 
tem dias que tudo se despedaça se parte, se despede, parte, o horizonte aberto em queda livre , uma ladeira até seu coração no fundo do poço, um beco sem saída, coleção de farpas, calendário de dias íngremes, estreitos, úmidos; tem horas em que muito do que se estilhaça adentra, transpassa, fomenta a dor, o horror, o abandono, o pecado.




quarta-feira, 27 de novembro de 2013

  


Nunca mais vou passar
seu colarinho...
decifrar suas perguntas,
ignorar seus conselhos,
desdobrar seus panos,
secar seus segredos,
chamá-lo de amor...
sorver o suor do bico dos seios,
nunca mais chupar seus dedos,
encostar me rego
em seu peito nu.
Nunca mais ouvir insultos
durante o sexo,
nunca mais o sexo,
nunca mais, amor

(pranto mudo, desenfreado).


   photo: kiko nazareth














seu cão

nesse reino acolhedor, os teares sem uso,
os talheres desfalcados,
um cão que se confunde com a lã, olhos imensos,
mas meus dedos pequenos e impotentes,
tal qual um monte de orfãos, não podem salva-lo...

fragmentos de casas e viagens interestaduais,
um tio em cada canto do seu coração, todos de segunda mão.
Na lista com nomes e sobrenomes, ninguém sabe quem somos,
só seu cão, aquele que parece um novelo de cabelo,
olhos de botões,...
sou um antigo tear sem uso... tocado pelas mãos de algum desatento,
sou orfão do tempo, dos irmãos, orfão de orfãos...

photo: kiko nazareth



O FIM DE QUASE TUDO
Conheço os sonhos alheios, 
são meus pesadelos em cabeças espalhadas por aí,
e todas as noites, barulhos e passos no sótão, 
goteiras, 
é o passado, 
e
a solidão com sua tonalidade morta. 
Cumpria uma promessa, um juramento de nunca desafinar, e cantar...
por que agora, parece impossível seguir surdo?
Não vimos o fim da corda chegar, o fim de quase tudo.
Achei que conhecia rezas, terços, crucifixos, até colecionei rosários 
e flores dentro de livros robustos, no fundo de uma gaveta em especial, enroladas em uma fita de veludo, guardei cartas e fotos desbotadas, que já não suportam mais estar lá...
Achei que sabia amar, mas nada nos levou ao desconhecido.




T   Ó   X   I   C   O


...ocuparam os espaços mais bonitos,
sobraram os ralos
e um lodaçal mal cheiroso, os surtos,
sobraram as rinhas,
um punhado de dinheiro,
um varal de roupinhas de bonecas,
curtos-circuitos,
televisão em rede aberta,
missas em idiomas e um cheiro de adeus
vindo do outro lado de um muro a ser construído...


Batismos com os tios, as fotos,
as montanhas, os rios.
Sobraram as lembranças mais bonitas,
duas alianças, duas, um relógio,
um terço, alguns livros...nada mais.

Venha ver,

deixei aqui

minhas impressões digitais.













 .d e d a l

Seria seu por um dia, só para alegrar o meu outono;
Mas prefiro estar nos seus sonhos,
na linha que você não leu,
no dedal que você não perdeu e
que busca feito sonâmbulo
desarrumando
o que já não tem mais
jeito...










Beijo  sem  língua


PASSE comigo,
Algumas horas,
Os verões duram
Minutos apenas
Quando estou com você.
A sua lembrança
É como a casca
De uma lagarta,
Como um beijo

Sem língua...                                                                

quarta-feira, 25 de novembro de 2009


t r ê s    m u l h e r e s

Sob seu arco-íris de duas cores
ela desenha seu devir,
brinca de esposa,
casa com o acaso,
“o amor é uma mariposa...”,
diz,
“que acaba ao conhecer a chama...”,
e se cala...
Pensa em quem a ama,
em suas dívidas,
em suas dúvidas...,
decide por não tê-las,
por cobrir o espelho
e olhar-se na face d’água.
Ela envolve sua beleza,
seu corpo, com uma anágua,
que somente às mães
lhes é concedida.
Sob seu arco-íris bicolor,
ela se detém para respirar
e admirar, para sentir
o vento em seu rosto,
a mão sem tempo para desenhar,
suas duas cores
a brilhar.

photo: Kiko Nazareth





ANJOS


A chuva está caindo
e os anjos estão caindo,
e eu...
Bem, devo ser breve como a chuva,
eu estou partindo.
Não tomarei muito do seu tempo
contando uma história triste,
mas serei um precioso instante,
nessa noite chuvosa...
uma gota, um pingo,
uma pluma caindo,
da asa do seu anjo preferido.
Serei breve como a chuva,
um instante infindo,
e já haverei partido.
Vivi em seus sonhos
e com razão vivi sorrindo,
flertando, voando...
Vivi como um anjo,
reinventando o amor.
Hoje, se parto completo,
levo daquilo que você não verá.
O mundo estará preciso,
perfeito, como sempre foi.
Anjos seguirão desfilando
embriagados pelos vivos;
você será forte,
e mais tarde, quem sabe?

Um anjo,...meu amor.

photo: kiko nazareth

















O  Sentimento  e  a  Mentira

O sentimento era assim
e eu já nem sabia
descrevê-lo.
Eu era profundo sofredor
mas não sofria,
você, meu amor,
inexistia.
E agora, o inevitável prosseguimento
daquele deste amor,
senão o esquecimento,
a dor.
Defendo-me graciosamente
e admito o perdedor magnífico,
porque hábil e necessário, porque
maravilhosamente atingido.
Não posso me abrir afinal,
não sei se haverá o fim
do confronto,...
sei havê-lo.
Quando tudo se repete,
a forma cambia magicamente.
A mentira era essa
e eu já nem sabia
contá-la
de forma coerente.


photo: Kiko Nazareth




                                                                             

N    A    D    A

                                   
mudar,
modificar,
refazer,
nossas vidas, lá.
aqui, eu transformo,
mas onde ficamos,
como e durmo.
Jogo o pão mofado fora,
tomo o café,...não sinto,
não sinto nada.
É tarde,
na cama, saudades,
mesmo com você do lado,
e um medo faz-se choro,
amar tanto é pecado...
mas mudar,
modificar,
enlouquecer,
individualmente,
já não sei
se você sente
como eu,
nada...,
nada.







frame from cameo 
by Kiko Nazareth







C U L P A  
O OLHO NEGRO DE UM PÁSSARO INOCENTE, 
PRÁ LÁ E PRÁ CÁ,
É A INQUIETAÇÃO QUE A FALTA DE NOTÍCIAS DÁ,
É A AFLIÇÃO PELA CULPA, TÃO INTENSA E MÍOPE;
AGORA VOCÊ ACREDITA 
QUE PRECISA SENTIR,
A MESMA DOR E SOLIDÃO,
DE QUEM, 
SENTE CULPA, TAMBÉM.



D
e
s
c
u
l
p
a
s



No topo da escada,
a escuridão;
no seu coração,
luz para trevas que me cobrem;
seu rosto
traz as cores
de todas as minhas fantasias...,
toquei seu destino
só para ver
minhas pegadas,
ouvi desculpas tardias.
Essa canção existe
para fazer-nos perecer;
esse ritmo, essa letra,
tudo por você, por você...
Um dia meu amor virá,
com cores redentoras,
rosto descoberto,
destino incerto...

photo: Kiko Nazareth

































QUEM




O olhar breve, breve,
o tempo que guardou as manchas
no seu coração deve, ser
também, o olho por cima desse vulcão
observando as partículas das cinzas até 
encontrarem o chão...


Leve, leve
daqui essas memórias,
essas cicatrizes, que hoje deixam sua lição,
que desenterra quem sempre se atreve
a descer pelo mesmo confuso vão.
































TEU CHEIRO  
Como eu desejei ter ouvido,
Antes do tempo,
Das mágoas, da traição ardida,
Quando teu peso foi soterrador,
Quando teu sopro foi quente,
exterminante, quando meu túnel
se fechou,
no fim de uma vida a dois...
Como desejei
que tivéssemos morrido,
Como quis ter sido,
o que jamais serei...
Alguém um dia me disse,
soprou no meu ouvido um cheiro
bom, de macho, de fêmea, e
misturados, dava no teu...































Maria (para a minha avó Maria)

Deus não mora só no céu, e reconhece

todo o tipo de fé, fervor e desvelo,

sente pena de quem não tem

respeito por todo e qualquer passageiro...

Todo canto esquecido pode ter
a sorte de estar em nossa trilha,
todo  tecido com sua trama,
todo mar com sua ilha, que se chama Maria;

De seus arquipélagos vem o vinho dos poetas,

nascem reis, é de onde escorre o mel.

Lá, Deus sabe ser divino, inteiro, vivendo

ora, como peregrino viageiro, ora, como ilhéu.



                                                        photo: kiko nazareth
photo: Kiko Nazareth